Prisão ocorreu após a vítima relatar 56 anos de agressões e casos como a desclassificação de ir ao enterro do filho
O desejo de levar uma amante de 23 anos para dentro da casa onde Vivia com a esposa foi o estopim para revelar um ciclo de violência que, segundo a Polícia Civil, atravessou praticamente todo o casamento. O caso terminou com prisão em flagrante de um idoso de 78 anos, nesta quarta-feira (22), em Campo Grande, suspeito de crimes de ameaça, injúria e cárcere privado no contexto de violência doméstica.
Idoso de 78 anos foi preso em flagrante em Campo Grande após décadas de violência doméstica contra uma esposa de 76 anos, com quem é casada há 56 anos. O estopim foi a exigência do marido para que ela aceitasse sua amante de 23 anos na residência. A vítima relatou agressões físicas, ameaças, humilhações e controle absoluto sobre sua rotina, incluindo a exclusão de se despedir de um filho falecido.
Casados há 56 anos e pais de oito filhos, o casal já havia enfrentado décadas de conflitos, mas a situação se agravou nos últimos anos. Conforme relatou a mulher, hoje com 76 anos, o marido passou a exigir que ela aceitasse o relacionamento extraconjugal que mantinha com uma jovem de 23 anos e, mais recentemente, queria que uma companheira recebesse uma amante dentro da residência da família.
A recusa deu início a uma sequência de ameaças, humilhações e ofensas, segundo a vítima. Em depoimento, ela contou que era chamada de “vagabunda“, “sem vergonha” e ouvia diariamente que “não servia mais” para o marido. Também afirmou que passou a noite anterior à denúncia sendo intimidada e não conseguiu dormir por causa das agressões verbais.
Mas o relato feito à Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) mostra que a violência não começou agora.
A idosa afirmou que sofreu agressões físicas durante anos. Disse que já levou socos, tapas, puxões de cabelo e chegou a ser espancada com uma mangueira. Segundo ela, era obrigada a esconder as marcas no corpo antes que outras pessoas vissem. Apesar de relatar que as agressões físicas diminuíram nos últimos anos, contorno que as ameaças, o controle sobre sua rotina e as humilhações encontradas constantes.
Ela também relatou que vivia praticamente sem autonomia. Disse que não podia visitar os filhos, sair de casa sozinha nem tomar decisões sem autorização do marido. “Eu quero que ele deixe a minha vida em paz”, afirmou durante o depoimento, ao explicar que não tinha interesse em discutir patrimônio ou bens do casal.
O episódio que mais marcou a família aconteceu poucos dias antes da prisão.
Um dos oito filhos do casal morreu recentemente, e, segundo a vítima e uma das filhas, o marido a proibiu de comparecer ao velório e ao sepultamento. A filha contou aos policiais que a mãe queria se despedir do filho, mas acabou permanecendo em casa por medo do companheiro, que teria imposto que ela não saísse.
Na manhã desta quarta-feira, uma filha foi até a residência para ajudar a mãe nas tarefas domésticas e encontrou um idoso retirando fezes de cachorro enquanto tremia de medo. Segundo o depoimento, a mulher pediu socorro e disse que não aguentou mais viver aquela forma. A filha afirmou ainda que o pai ameaçou: “Leva ela daqui, senão vai ser o fim dela”. Diante da situação, acionou a polícia.
À polícia, o homem negou todas as acusações. Disse que nunca agrediu ou manteve a esposa em cárcere privado e afirmou que ela não foi ao velório do filho porque “não quis”. Admitiu, porém, manter um relacionamento com outra mulher, alegando que a esposa, após uma cirurgia, não mantinha mais relações sexuais com ele havia cerca de cinco anos. Também confirmou que pretendia se separar para “seguir a vida”.
Durante o interrogatório, o idoso negou que tenha obrigado a sua esposa a aceitar a presença da outra mulher na residência e afirmou que ela estava na propriedade apenas para buscar bananas produzidas na chácara do casal. Também rebateu as acusações de ameaças e injúrias, sustentando que tudo seria uma invenção da esposa e da filha para prejudicá-lo.
A vítima pediu medidas protetivas e afirmou que seu único desejo era conseguir viver em paz. “Vocês fazem aí para mim, me defendendo, me ajudando, me dando força para eu sair dessa boca da onça”, disse aos policiais.
